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Setembro Amarelo: o mês está terminando, mas a luta pela prevenção ao suicídio continua

Com o agravamento da pandemia, a psicóloga Thais Tagliachassi Gouvea afirma que aumentaram os casos de depressão, TOC, pânico e ansiedade generalizada; veja a entrevista

Além de ser o mês que celebra a chegada da primavera, setembro foi escolhido para despertar a conscientização sobre a prevenção do suicídio. A campanha "Setembro Amarelo" foi criada no Brasil, em 2015, pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Falar de saúde mental é mais urgente que nunca. A conscientização é essencial para reduzir os índices de suicídio no país.

Índices preocupantes
Segundo estudo realizado pela Unicamp, 17% dos brasileiros, em algum momento, pensaram seriamente em dar um fim à própria vida e, desses, 4,8% chegaram a elaborar um plano para isso. Em muitos casos, é possível evitar que esses pensamentos suicidas se tornem realidade. A primeira medida preventiva é a educação. 

Durante muito tempo, falar sobre suicídio foi um tabu, havia medo de abordar o assunto. De uns tempos para cá, especialmente com a expansão da campanha Setembro Amarelo, esta barreira foi derrubada e informações ligadas ao tema passaram a ser compartilhadas, possibilitando que as pessoas possam ter acesso a recursos de prevenção. 
De acordo com dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em setembro de 2019, a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no mundo. Mais de 800 mil pessoas acabam com a própria vida ao ano. No Brasil, foram registrados 13.467 casos de suicídio, dos quais 10.203 foram cometidos por homens.

Em entrevista à reportagem do
Giro S/A, a psicóloga Thais Tagliachassi Gouvea (@psi.thais.tgouvea), que atende pacientes online e em dois consultórios localizados em Alphaville, SP, discorre sobre o tema.

A psicóloga Thais Tagliachassi Gouvea é especialista em terapia cognitivo comportamental (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)

Qual a importância de falar da campanha de suicídio? A Campanha Setembro Amarelo é muito importante para que possamos discutir mais abertamente sobre o tema que ainda é tabu. Existe a crença de que falar sobre suicídio incentivaria pessoas a cometerem o ato, quando é exatamente o contrário. Entender, desmitificar e discorrer a respeito do assunto é fundamental.

Como a pandemia tem influenciado na piora da saúde mental? O isolamento social, o medo, a incerteza, a insegurança, os problemas financeiros, são preditores para o agravamento dos transtornos. Especialmente o TOC, a depressão, a ansiedade generalizada e o pânico. Estes fatores podem ter funcionado como gatilhos para o aparecimento dos transtornos mentais. O transtorno mental não tem uma causa única, ele é sempre multifatorial. Depende de questões genéticas, do ambiente em que vive, do entendimento das circunstâncias que acontecem com ela. Se a pessoa tem pré-disposição, pode ser sim um gatilho para o surgimento dos transtornos.

Em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um alerta: a depressão seria a maior causa de afastamentos do trabalho em 2020. Qual o reflexo sentido no seu consultório? A depressão é um dos transtornos mentais, junto com os quadros de ansiedade, que tem mais crescido nos últimos anos. Tenho percebido esta demanda crescente no consultório, inclusive, entre muitos jovens e adolescentes. Com o agravamento da pandemia, aumentaram os casos de depressão, TOC, pânico e ansiedade generalizada.

As dificuldades para adaptação no trabalho remoto podem aumentar a ansiedade e depressão? O que tenho percebido são dois grupos bem distintos. Metade das pessoas, têm sim, dificuldade de trabalhar em home office, por várias questões como o convívio 24h com as pessoas da casa ou pelo contrário, por ser uma pessoa que vive sozinha em casa. Estas pessoas reclamam do empobrecimento social, da importância de sair para trabalhar e encontrar com os pares e colegas de trabalho. Há outra parte das pessoas que dizem que se adaptaram muito bem e, neste momento, estão sentindo que não gostariam de voltar ao trabalho como antes. No meu ponto de vista, este modelo remoto, pode sim aumentar os casos de depressão e ansiedade, exatamente pela falta do convívio social. Nós, seres humanos, somos seres sociais, e esse empobrecimento, a longo prazo, me preocupa.

Como o isolamento da quarentena pode ter interferido na saúde mental das pessoas? O isolamento é prejudicial para nossa saúde mental e emocional. A gente precisa da interação com o outro, a gente precisa da troca, muitas vezes é no olhar do outro que eu me reconheço. Não é por acaso que neste período, muitos experimentam períodos de emoções exacerbadas ou emoções diferentes do que costumamos ter habitualmente.

O aumento de peso devido à quarentena pode ser caracterizado como uma consequência de saúde mental? Esse aumento de peso é o que chamamos de regulação emocional por meio da comida. Então, elas "comeram" suas emoções. Foi uma forma que as pessoas encontram de dar conta ao que estavam sentindo e vivendo, pela angústia, ansiedade, nervosismo e até mesmo pelo tédio. Mas esse comportamento a gente aprende desde a infância, quando a criança toma uma vacina e tem a compensação com um doce depois. E com isso, há um pareamento, ou seja, na hora que eu tenho um sofrimento, eu ganho uma recompensa em forma de comida. Além disso há as pessoas que passaram a cozinhar em casa e acabaram por comer mais.

Como ajudar a quem declara que "deseja morrer". Isso pode ser um sinal de suicídio? Sim, com toda certeza. O fato da pessoa expressar em palavras que deseja morrer, é um sinal de alerta. Todos nós temos problemas. Faz parte da condição humana. Quando uma pessoa externaliza, chega a esse ponto, é porque o sofrimento está muito grande. É importante sinalizar que é preciso procurar ajuda e que existem profissionais que podem contribuir para aliviar essa dor. É importante evitar críticas e acolher esse sentimento. E jamais tratar como frescura, ou algo do tipo.

Quais os principais sinais que uma pessoa apresenta ao estar depressiva? Existe um estigma que a pessoa com depressão passa o dia na cama, no escuro, mas não é bem isso. Existem quadros depressivos que sim, mas muitas vezes a pessoa disfarça e leva uma vida aparentemente normal. Há alguns sintomas perceptíveis como: humor deprimido na maior parte do dia, diminuição do prazer nas atividades do dia a dia, ganho ou perda significativa de peso, insônia ou hipersonia, que é dormir a toda hora, fadiga ou perda de energia e até capacidade diminuída de concentração ou de pensar.

Todo suicida é depressivo ou não? A possibilidade de um comportamento suicida existe permanentemente durante os episódios de depressão. Tem alguns outros transtornos que também podem ser fatores de risco para o comportamento suicida, como o transtorno bipolar e o transtorno de personalidade borderline.

Como podemos ajudar uma pessoa depressiva? O mais importante é não minimizar o sofrimento de uma pessoa com depressão. Não tratar com negligência, dizendo que a depressão é frescura, que a pessoa está querendo chamar atenção, que é falta de força de vontade, que é falta de fé. O mais importante é acolher a dor do outro, sempre oferecer ajuda e, se possível, encaminhar a um profissional, seja o psicólogo ou psiquiatra, que tem habilidade de fazer um diagnóstico e oferecer o tratamento adequado. A depressão tem tratamento e por meio dele que se pode evitar consequências mais graves inclusive o comportamento suicida.

Você não está sozinho
No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atende voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, pelo telefone 188.

Estudo realizado pela Unicamp aponta: 17% dos brasileiros já pensaram seriamente em dar um fim à própria vida (Foto: Divulgação/CVV)

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