“Devastação ambiental pode acelerar a crise hídrica em nosso país”, diz presidente da ONG Gente como a Gente

As queimadas estão fortemente associadas à devastação da Amazônia e na região Centro-Oeste, pois essas regiões são responsáveis pela formação dos rios flutuantes, que regulam as chuvas em toda América do Sul, afirma Grilenzoni
"Nosso país padece de uma falta ética enorme, onde os temas fundamentais são colocados à margem e os temas do lucro insustentável gozam da predileção" (Arquivo / Agência Brasil)

Nessa entrevista exclusiva ao Giro S/A, o professor e presidente da ONG Gente como a Gente, Magno Grilenzoni, fala sobre a urgência de se debater e corrigir falhas na questão ambiental brasileira e como pequenas e grandes atitudes podem proteger os biomas brasileiros e evitar problemas maiores. Acompanhe:

Giro S/A. Estamos assistindo todos os dias cenas de incêndio em todos os biomas em nosso país. Toda essa destruição já está cobrando seu preço na falta de água e na busca pelo líquido cada vez mais longe das capitais?

Magno Grilenzoni. É natural que no período de estio exista a possibilidade de queimadas, contudo essas queimadas estão fortemente associadas à devastação da Amazônia e também na devastação ambiental que tem ocorrido na região Centro-Oeste, pois essas regiões são responsáveis pela formação dos rios flutuantes, que regulam as chuvas em toda América do Sul. Caso se siga esse ritmo, não haverá onde se buscar água, pois sem chuvas os reservatórios diminuem seus volumes e as queimadas se potencializam

Giro S/A. Ao que parece, muitos dos incêndios são criminosos, mas isso aparenta afetar nem o governo nem os parlamentares atuais. Onde está o erro?

M. G. Desde o período da redemocratização, quando veio à luz a Constituição de 1988, o Congresso Nacional nunca teve qualquer aliança forte para a defesa ambiental. Apenas poucas vozes isoladas, e sempre vencidas. Contudo, o atual governo prima uma expansão insustentável. Foi promessa do senhor presidente da república, em sua campanha eleitoral, a extinção do Ministério do Meio Ambiente, contudo, o mesmo recuou diante dos protestos da comunidade internacional que prometeu embargos econômicos, caso se firmasse tal intento. Assim, os homens que ocupam a pasta do Meio Ambiente são notadamente contrários às boas práticas ambientais e oparlamento segue como sempre foi, inerte e indiferente às truculentas devastações.

Giro S/A. Há algo que podemos fazer como cidadãos para que ações de salvamento da natureza se intensifiquem?

M. G. Pequenas práticas fazem toda a diferença. Plantar uma árvore, também abster-se ou reduzir o consumo de itens de origem animal, que causam grande impacto ambiental, são algumas das maneiras mais eficazes de contribuir de forma micro.

Giro S/A. Quais são as punições para quem destrói biomas, sendo por fogo, sendo por manejo irresponsável?

M. G. São as punições de caráter administrativo, quais sejam multas e destruição de objetos usados para praticar o crime, e as punições de caráter criminal. Contudo, o atual governo reduziu significativamente os mecanismos de fiscalização e punição por parte da autoridade ambiental. E, lamentavelmente, são praticamente desconhecidas as pessoas que são presas por perpetrarem crimes ambientais.

Giro S/A. Os grandes proprietários de terra acham que as leis do meio ambiente são ainda muito rígidas e até recentemente pediram revisão delas por parlamentares. Por que esse setor é tão eudeusado e o que ele causa de verdade?

M. G. Esses indivíduos são igualmente donos de grandes capitais, capitais giram e se multiplicam através dessa devastação. Eles valem-se de seus recursos para fazer lobby aos parlamentares, com isso exercer pressão para que as suas pautas sejam atendidas. Mas não paramos nos lobbys, também patrocinam campanhas eleitorais de deputados federais e senadores, a fim de que os mesmos trabalhem para seus interesses.

Giro S/A. Por que o tema ambiental, tão importante para a vida na terra, é tão pouco debatido e levado a sério em nosso país?

M. G. Infelizmente, nosso país padece de uma falta ética enorme, onde os temas fundamentais são colocados à margem e os temas do lucro insustentável gozam da predileção. Em nome do lucro, do lucro sujo, do lucro insustentável, e do lucro que a todos prejudicam, é que a questão ambiental é preterida.

Giro S/A. Qual seria o cenário ideal para a sustentabilidade não só de nosso país, mas também para o mundo todo?

M. G. A maior parte dos países de primeiro mundo já tem uma legislação ambiental aperfeiçoada, e também pautas educativas ambientais. Mas nosso país ainda precisa aprimorar-se muito nesse sentido. O cenário ideal é aquele onde tudo seja pensado de maneira sustentável e ecológica, sem esquecer-se que o próprio ser humano faz parte do meio ambiente e também necessita fluir os recursos da natureza, mas de forma sustentável para que eles não se extingam.

Giro S/A. Quais são as consequências desse descaso nosso do dia-a-dia com o meio ambiente?

M. G. O descaso com o meio ambiente, significa descaso para com nós mesmos, visto que nós somos parte indissociável do meio ambiente. As mazelas ambientais repercutirão inevitavelmente em nós, tornando nossa vida, uma vida de péssima qualidade.

Giro S/A. É possível termos atitudes individuais importantes para barrar a crise hídrica e o agravamento dessa situação?

M. G. A crise hídrica não é uma crise natural, mas sim um sintoma de todos os descasos ambientais. Para combater a crise hídrica, é necessário pensar no reflorestamento das áreas ambientais devastadas, ter uma especial atenção com as margens dos rios que devem manter grande vegetação em sem entorno, pois as árvores tem o condão de proteger os rios e as nascentes.

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Terça, 07 Dezembro 2021

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