Sidebar Menu

Caos: Chuva recorde provoca prejuízos nas cidades

Em muitos bairro das cidades da região, a população ficou ilhada por conta dos alagamentos

Jardim Piratininga, em Osasco, ficou alagado perto da ponte sobre o Rio Tietê. Moradores e comerciantes ficaram ilhados. O trânsito ficou caótico. Um jacaré de 1,5 metro apareceu perto da ponte (Foto: Reprodução/vídeo internet)

As cidades da região tentam voltar à normalidade após as fortes chuvas que começaram na noite do domingo, 9, e seguiram por horas ininterruptas na segunda-feira, 10, atingindo todas as cidades da região, o que provocou alagamentos e deslizamentos de terras e/ou desmoronamentos.

De acordo com dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do INPE, nos primeiros 11 dias de fevereiro de 2020 já choveram 259 mm. Desse volume, 160 mm só no dia 10, ou seja, já choveu acima do valor climatológico (média do período 1981-2010) do mês de fevereiro para esta região.

Em Osasco, alguns bairros como o Piratininga e o Rochdale viraram um mar após o transbordamento do Rio Tietê, que há décadas não extravasava, e córregos. A mesma cena se repetiu em Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Santana de Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus. Por precaução, pontes tiveram que ser interditadas devido à pressão das correntezas da água do Tietê.

"Não é fácil, mas não vou desanimar, sei que o melhor está por vir", desabafa William Lopes, comerciante de Barueri que perdeu tudo na enchente no Centro de Barueri.
Além dos alagamentos, a chuva interrompeu os serviços de transportes férreos nas duas linhas que atendem a região. O trânsito bateu recorde de congestionamento nas principais vias e rodovias.

"O clima mudou e as cidades estão sentindo esse reflexo, pois não estão preparadas para a nova realidade", explica Alejandra Maria Devecchi, gerente de Planejamento Urbano da Ramboll.

Segundo a Defesa Civil do Estado, Osasco tem 81 famílias desalojadas, 3 em Barueri, 7 em Carapicuíba, 4 em Pirapora do Bom Jesus e 5 em Araçariguama.

Piscinões não foram suficientes

Osasco, Carapicuíba e Itapevi possuem piscinões que são reservatórios que têm a função de absorver a água durante as chuvas a fim de minimizar os impactos e enchentes nas regiões. Mas, eles não suportaram o alto volume de água na chuva.

Em Osasco há dois piscinões, o do Bonança, com capacidade para 63 mil metros cúbicos, e o do Rochdale, com 63 mil m3 , que, segundo moradores, está assoreado. Itapevi conta com três piscinões (Vitápolis, Suburbano e Sapiantã), que foram construídos nos últimos três anos, que ajudaram a minimizar os problemas causados pelas fortes chuvas.

"Eles (piscinões) são uma medida paliativa; lá não chega só água, mas também sedimentos, lixo, a própria população deposita detritos ali. Assim, o reservatório fica atolado", explica Filipe Antonio Marques Facetta, pesquisador da Seção de Investigações, Riscos e Desastres Naturais do IPT.

"Os piscinões foram limpos durante todo o ano passado e vistoriados no fim de 2019 nas ações preparatórias para as chuvas de verão. No caso do Rochdale, o DAEE oficiou a Prefeitura de Osasco para limpeza do canal abaixo do piscinão. Sem estes serviços, a água da estrutura não escoa. O lixo encontrado após as chuvas é carregado pelas águas por conta do descarte incorreto em vias públicas", diz em nota o DAEE. A Prefeitura de Osasco está canalizando o Braço Morto que melhorará o escoamento das águas.

Cidades decretam calamidade pública e emergência.

Uma das mais atingidas, Osasco decretou situação de calamidade pública. Com isso, a cidade pode ter acesso a recursos federais para ações de socorro, assistência, restabelecimento de serviços essenciais e reconstrução de estruturas públicas afetadas.

Carapicuíba decretou situação de emergência após chover 122 milímetros, que causaram alagamentos e danos ambientais. A cidade recebeu ajuda humanitária com kits dormitório, higiene pessoal, limpeza e vestuário. Pirapora do Bom Jesus, após o Rio Tietê extravasar e invadir a cidade, decretou situação de emergência. Com a diminuição das chuvas nos últimos dois dias, o nível do rio Tietê baixou consideravelmente e as famílias puderam retornar às casas. Araçariguama também está com emergência em vigor; as aulas estão suspensas no município.

Vítimas

Um cenário devastador. Famílias sem saberem para onde vão e pessoas feridas. Em meio ao temporal, uma imagem impressionante assustou os moradores do Morro do Socó, no Portal I, zona Norte de Osasco, e também do País pela velocidade em que a terra encobriu moradias. Neste local, o garoto Cauê de sete anos ficou soterrado durante 25 minutos, teve uma parada cardiorrespiratória e está na UTI do Hospital de Barueri. Outros dois adultos também ficaram feridos, mas já foram liberados das unidades de saúde.

Á reportagem, um parente e um amigo próximo da família relataram que o menino está reagindo ao tratamento e já apresenta melhoras. Já em Pirapora do Bom Jesus, uma adolescente de 16 anos ficou parcialmente soterrada, foi socorrida pelos Bombeiros e está bem. Um desmoronamento deixou uma mulher ferida no bairro Aliança, em Osasco.

A moradora do Socó, Luana Oliveira, de 27 anos, fala sobre o susto que teve ao lado de suas duas filhas. "Estávamos dormindo quando por volta das 3h da manhã ouvimos os estalos, começou a cair pedras e barros como se tivesse alguém batendo no barraco. Passaram algumas horas e tudo veio abaixo", revela Luana, em meio ao barro.

"São necessárias medidas focadas em adequar as cidades no enfrentamento desse problema ambiental. Em sua opinião, o âmbito municipal deveria ser o foco das políticas públicas de adaptação", disse Ivan Carlos Maglio, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP à Radio USP.

Obras atrasadas

Duas importantes obras de combate às enchentes em Osasco, as urbanizações do Santa Rita e do Rochdale, que tiveram períodos de paralisações após o início em 2013 e 2015, respectivamente, inundaram trechos já feitos.

No Rochdale, orçada em R$ 115.013.420,00, a obra que envolve a canalização de um trecho do Braço Morto do Tietê ficou alagada. Já a do Santa Rita, que envolve a canalização do córrego Baronesa que teve obras retomadas no início deste ano, com orçamento de R$ 63.137.900,00.

"A obra em questão integra o pacote de intervenções com recursos do PAC 2 (Plano de Aceleração do Crescimento), do Governo Federal. A obra estava paralisada aguardando transposição de recursos, tendo sido retomada há um mês", comenta em nota a Prefeitura de Osasco.

Procurado o Ministério do Desenvolvimento Regional não quis se manifestar.

Limpeza segue nas cidades

Após a sujeira provocada pela lama dos transbordamentos dos córregos na região, as administrações municipais seguem na limpeza das ruas atingidas pelas chuvas. Famílias que perderam móveis tentam se recuperar. "Muito triste, o pouco que temos, a enchente leva tudo", desabafa Nanci Araújo, moradora da Vila dos Remédios em Osasco.

Osasco segue na limpeza e atendimento às famílias afetadas assim como Carapicuíba, Jandira, Itapevi e Santana de Parnaíba. Toneladas de móveis perdidos e barro já foram retirados dos locais.

Solidariedade

Ações sociais de organizações sociais como igrejas e ONGs, e a união do governo do Estado com as Prefeituras, ajudam as famílias atingidas pelas chuvas. O governo paulista presta ajuda humanitária.

Osasco lançou campanha para arrecadar donativos. Já foram arrecadados 319 eletrodomésticos (fogões e geladeiras), 12 toneladas de alimentos e material de higiene e de limpeza. Ao todo, serão beneficiadas 4.325 pessoas. Barueri e Parnaíba usaram recursos próprios para atender que necessitam. Quem quiser doar pode procurar o Fundo Social do município.

• Leia mais

Governador
O governador em exercício, Rodrigo Garcia (DEM), sobrevoou Osasco e região para visualizar e determinar ações para ajudar as cidades. Garcia estava com o Chefe da Casa Militar e Coordenador da Defesa Civil Estadual, Coronel Walter Nyakas Júnior, e com o secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido.

Recorde
O Corpo de Bombeiros recebeu somente na segunda-feira, 10, 1.043 chamados para atendimento de enchentes, 193 para desabamentos/desmoronamentos e 219 para quedas de árvores. Grande parte destas ocorrências ocorreu na região.

Assistência
A secretária de Desenvolvimento Social do Estado, Célia Perns, visitou nesta quinta-feira, 14, um dos abrigos que está recebendo desabrigados em Osasco. O objetivo da visita é prestar solidariedade e orientar a população atingida, de como devem fazer para antecipar benefícios de programas como Bolsa Família, liberar crédito extra do BPC (Benefício de Prestação Continuada), antecipar a parcela do Fundo a Fundo e liberar os benefícios eventuais.

Barragens
A Empresa Metropolitana de Águas e Energias (EMAE) diz que as barragens de Pirapora do Bom Jesus são seguras e trabalham dentro da normalidade. Moradores ficaram preocupados após as fortes chuvas e com a velocidade da vazão das águas. Estatal diz que local não tem sinais de alertas.

Jacaré
Em meio ao mar que ficou o Jardim Piratininga, um filhote de jacaré foi visto na avenida Bandeirantes, próximo ao Rio Tietê, e depois foi capturado por dois homens que o colocaram em um saco de lixo preto. O porta-voz do Corpo de Bombeiros, capitão Palumbo, diz que o animal pode ser do Parque do Tietê, na zona Leste da Capital.

Ceagesp
O principal entreposto hortifrutigranjeiro do estado e próximo a Osasco, a Ceagesp, diz que aos poucos a rotina está voltando ao normal. "Todos os alimentos contaminados ou que tiveram contato com as águas das enchentes estão sendo recolhidos para serem devidamente descartados, por questões de segurança alimentar", diz em nota a Ceagesp.

Galeria de fotos
por Reinaldo Vaz -  Giro S/A


Veja mais notícias sobre Metrópole.

Veja também: